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HOME > blogs > DIVERSIDADE
Na sua crucifixão, Jesus se torna solidário com todos os crucificados da história, comtodos os que sofrem brutal e injustamente, incluindo os LGBT.

BLOG DO
Diversidade

A Paixão de Cristo na Paixão dos LGBT+


			
				A Paixão de Cristo na Paixão dos LGBT+
Na sua crucifixão, Jesus se torna solidário com todos os crucificados da história, comtodos os que sofrem brutal e injustamente, incluindo os LGBT.. Na sua crucifixão, Jesus se torna solidário com todos os crucificados da história, com todos os que sofrem brutal e injustamente, incluindo os LGBT.

Por:Luís Corrêa Lima*

A hostilidade contra LGBTs, com inúmeras formas de discriminação, mesmo quando

não leva à morte, traz frequentemente tristeza profunda ou depressão.

O padre Júlio Lancellotti trabalha corajosamente na cidade de São Paulo com população

de rua. Ele relata a situação dramática que encontra:

Na missão pastoral tenho conversado com vários LGBT que estão pelas ruas

da cidade, alguns doentes, feridos, abandonados. Muitos relatam histórias

de violência, abuso, assédio, torturas e crueldades. Alguns contam como

foram expulsos das igrejas e comunidades cristãs, rejeitados pelas famílias

em nome da moral. Testemunhei lágrimas, feridas, sangue e fome.

Impossível não reconhecer neles a presença do Senhor Crucificado! [1]

Esta sensibilidade espiritual é profundamente cristã, pois o Filho eterno de Deus, ao se

tornar humano, é solidário com toda humanidade, especialmente os pobres e os que

sofrem. É o próprio Jesus que diz: “tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste

de beber [...] pois todas as vezes que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos,

foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 31-46). Ele se identifica com famintos, sedentos,

estrangeiros, nus, enfermos e encarcerados. Na sua crucifixão, Jesus se torna solidário

com todos os crucificados da história, com todos os que sofrem brutal e injustamente,

incluindo os LGBT. Mas a Sua paixão é desqualificada pelos seus adversários que

sordidamente dizem: “Salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!” (Mt

27,40).

A violência contra LGBT tornou-se mais evidente por causa de sua visibilidade no mundo

atual. No passado, para se defender da intolerância e da hostilidade, muitos deles viviam

no anonimato ou à margem da sociedade. Vários gays e lésbicas se escondiam no

casamento tradicional, constituído pela união heterossexual, para não manifestarem sua

condição. Travestis e transexuais não tinham acesso aos procedimentos de

transexualização hoje disponíveis. Em alguns lugares formavam guetos, que eram

espaços de convivência bastante reservados como forma de proteção dos indivíduos.

Atualmente, a situação é bem diferente. Muitos deles fazem grandes paradas, estão

presentes em filmes, programas de televisão, olimpíadas, empresas, escolas e outras

instituições; buscam reconhecimento, exigem ser respeitados e reivindicam os mesmos

direitos e deveres dos demais cidadãos. Esta população está em toda parte. Quem não faz

parte dela, tem parentes próximos ou distantes que fazem, velada ou manifestamente, bem

como vizinhos ou colegas de trabalho.

A aversão aos LGBT produz diversas formas de violência física e verbal. Há pais de

família que já disseram: “Prefiro um filho morto a um filho gay!”. Há avós que já

disseram: “Prefiro vinte netas putas a uma neta sapatão!”. Não são raros travestis, gays

e lésbicas expulsos de casa por seus pais. Entre os palavrões mais ofensivos em português,

constam a referência à condição homossexual (veado!) e ao sexo anal, comum no

homoerotismo masculino. Ou seja, é xingamento. Muitas vezes, quando se diz: “fulano

não é homem”, entende-se que é gay; ou “fulana não é mulher”, que é lésbica. Ou seja,

ser homem ou mulher supostamente exclui a pessoa homossexual. Esta aversão se enraíza

profundamente na cultura. No Brasil são muito frequentes os homicídios, sobretudo de

travestis. Não raramente, estes homicídios são cometidos com requintes de crueldade. Há

também suicídios de muitos adolescentes que se descobrem LGBT, e mesmo de adultos.

Eles chegam a esta atitude extrema por sentirem a hostilidade da própria família, da escola

e da sociedade. Calcula-se que o índice de suicídio nesta população é cinco vezes maior

que no restante. Toda esta hostilidade com inúmeras formas de discriminação, mesmo

quando não leva à morte, traz frequentemente tristeza profunda ou depressão.

Curiosamente, esta realidade está ausente em muitos documentos da Igreja Católica. Ao

se falar de pobres, excluídos e pessoas que sofrem, menciona-se frequentemente:

migrantes, vítimas da violência, refugiados, vítimas de sequestro e tráfico de pessoas,

desaparecidos, portadores de HIV, vítimas de enfermidades endêmicas, tóxico-

dependentes, idosos, meninos e meninas vítimas da prostituição, pornografia, violência

ou trabalho infantil; mulheres maltratadas, vítimas de exclusão e exploração sexual,

pessoas com deficiência, grandes grupos de desempregados, excluídos pelo

analfabetismo tecnológico, moradores de rua em grandes cidades, indígenas, afro-

americanos, agricultores sem-terra e mineiros [2]. Infelizmente, falar de LGBT ainda é

incômodo em muitos ambientes. Não raramente, o sofrimento desta população é ignorado

ou silenciado.

Para representar a violência sofrida por eles e elas, a travesti e atriz Viviany Beleboni

encenou uma crucifixão em uma parada em São Paulo. Depois disto, ela mesma foi

agredida violentamente duas vezes como forma de retaliação. Levou chutes, sofreu cortes

no corpo, teve hematomas e dentes quebrados. Sobre a segunda agressão, feita por cinco

homens, ela relata algo revelador sobre a motivação dos agressores:

A todo momento falavam que eu era um demônio, que essa raça tinha que

morrer. Recitavam passagens da Bíblia ou que diziam alguma coisa

relacionada à Bíblia. Falavam em Romanos e coisas como “não te deitarás

com um homem, como se fosse mulher” e muitas palavras que não entendia,

como se fosse em outro idioma. Eles diziam também “traveco vira homem”,

“praga da humanidade”. Ofensas e Chutes. Quero esquecer [3].

Lamentavelmente, estes agressores fanáticos utilizam a Palavra de Deus, tirando-a do

contexto em que foi escrita, para justificar a demonização do outro e a agressão brutal.

Tornam-na uma palavra de morte, um instrumento diabólico. Dela extraem “balas

bíblicas” disparadas impiedosamente contra homossexuais e transgêneros.

A hostilidade a LGBT não é gratuita. Há importantes indicações de que o preconceito

contra esta população seja um temor inconsciente do coração humano que se recusa a

reconciliar-se com a própria verdade. O medo do perigo de contágio, fanatismos,

rigorismos e repugnâncias em relação eles e elas revelam uma necessidade de ocultar a

verdade sobre a própria existência, ou sobre impulsos interiores. Na base dos

preconceitos, há frequentemente o medo de perder a própria segurança diante do que é

diferente, estranho e desconhecido, catalogando-o por isso mesmo como perigoso e

inferior. Quanto maiores o fanatismo e a repugnância, provavelmente existe também uma

maior necessidade de ocultar a própria existência, ou uma plena recusa a reconciliar-se

com a própria verdade.

Júlio Lancellotti reconheceu a paixão de Cristo na população de rua LGBT. Viviany

Beleboni a representou e a sofreu. Recentemente, Marielle Franco foi assassinada. Ela

era bissexual e defendia os direitos humanos de diversas populações. A paixão de Cristo,

consequência de Sua vida e luta em favor do anúncio do Reino de Deus, não deve ser

jamais desqualificada. O Seu corpo é dado e o Seu sangue é derramado pela salvação da

humanidade. Não nos esqueçamos dos crucificados da história com os quais o Cristo é

solidário, nem deixemos que os desqualifiquem e esqueçam. Cultivar a memória deles e

delas é trilhar o caminho que conduz à ressurreição.

[1] LANCELLOTTI, J. Postagem, 9/6/2015.

[2] CELAM. Documento de Aparecida, 2007, n. 402.

[3] QUERINO, Lucas. “Viviany Beleboni é espancada novamente por cinco homens:

‘Demônio’”. 12 jul. 2016.

*Luís Corrêa Lima é padre jesuíta e professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio.

Trabalha com temas de modernidade, história da Igreja, diversidade sexual e de gênero.

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